Como Alcançar uma Equipe Comprometida?
- Lia D'Amico

- há 1 dia
- 4 min de leitura
Como consultora e mentora em agências de comunicação do Brasil, observo com frequência a busca por um objetivo em comum: equipes mais comprometidas. Líderes comentam constantemente sobre o desafio de transformar suas equipes desengajadas em times altamente comprometidos, em vez de grupos que simplesmente aceitam ordens e aproveitam qualquer oportunidade para "fugir" do trabalho ou desaparecer em horário de expediente.

A dicotomia: comprometimento vs. aceitação
Uma equipe comprometida vai além da mera aceitação de ordens. Ela se caracteriza pelo engajamento genuíno com os objetivos, pela busca por soluções inovadoras e pela proatividade na entrega de resultados. Já uma equipe que apenas aceita ordens se limita a cumprir tarefas sem questionamentos, sem oferecer ideias e sem se sentir parte fundamental do processo.
Essa diferença crucial entre comprometimento e aceitação pode ser a chave para o sucesso organizacional. Inspirando-me nos conceitos dos livros "Multiplicadores" de Liz Wiseman e "A Linguagem da Liderança" de David Marquet, explorarei como fomentar uma equipe comprometida, oferecendo práticas e dicas para essa transformação.
Como sua Linguagem Pode Resolver Todos os Seus Problemas
A linguagem de liderança que estamos acostumados a usar é antiquada, determinística e binária. Ela se baseia na aceitação de ordens, e não no comprometimento.
Uma equipe que aceita ordens faz o mínimo necessário. Os membros seguem instruções sem questionar e executam tarefas de forma mecânica. Este comportamento geralmente resulta em uma falta de inovação e proatividade, já que os colaboradores não se sentem donos dos processos ou resultados.
Por outro lado, uma equipe comprometida é formada por indivíduos que se sentem responsáveis pelo sucesso coletivo. Eles são proativos, engajados e dedicados a encontrar soluções criativas para os desafios. Esse nível de engajamento surge quando os colaboradores sentem que suas contribuições são valorizadas e que possuem autonomia para tomar decisões.
Um Exemplo Real: O Naufrágio do El Faro
Um exemplo trágico ilustra bem a diferença entre uma equipe comprometida e uma que apenas aceita ordens. Em 2015, nas Bahamas, o navio El Faro enfrentou uma tempestade que resultou em seu naufrágio, causando a morte de seus 33 tripulantes.
Seria simples apontar dedos para todos que deveriam ter feito correções de rota para evitar a catástrofe, mas o verdadeiro problema foi a comunicação. Segundo o relatório, o capitão "não se deu conta da gravidade da ameaça" e não tomou as medidas apropriadas. A linguagem usada para conduzir as operações era falha, resultando em consequências fatais.
O capitão era conhecido por apontar publicamente erros de quem apresentava ideias das quais ele não gostava. Ele usava uma linguagem de invulnerabilidade e invencibilidade, afirmando que tudo ficaria bem e que a tripulação deveria confiar nele, mesmo diante dos desafios. Embora sua intenção fosse inspirar confiança, ele acabava inibindo manifestações de inseguranças e riscos percebidos.
Quando fazia perguntas aos seus tripulantes, eram binárias e determinísticas: "Você tem certeza?" em vez de "Quão seguro você está disso?", uma pergunta que oferece mais espaço para a reflexão e expressão das ideias. O resultado é que a tripulação não se sentia parte do solucionamento de problemas no navio.
O Apoio Minucioso vs. a Confiança na Entrega
O formato de apoio que chamamos de microgestão é um exemplo clássico de liderança que diminui o poder das equipes. Imagine João, o chefe de uma equipe de criação, que revisa cada detalhe dos trabalhos de seus designers. Ele constantemente dá feedback minucioso sobre cores, fontes e alinhamentos, ajustando as escolhas criativas conforme sua visão. Os designers sentem-se desencorajados, passam a fazer apenas o mínimo necessário, esperando as direções de João. Sentem que percebendo suas habilidades e criatividade não são valorizadas.
Em contraste, Maria, a líder de uma equipe de desenvolvimento, confia a um dos desenvolvedores a responsabilidade de liderar um novo projeto. Ela diz: “Eu acredito na sua capacidade para entregar um produto de sucesso. Use sua criatividade para solucionar esses desafios do projeto e me mantenha informada sobre o progresso”. O desenvolvedor se sente valorizado e motivado a dar o seu melhor, sabendo que Maria confia em suas habilidades e julgamento.
Para fomentar o comprometimento, devemos incentivar a autonomia, e isso demanda oferecer confiança na execução que a equipe é capaz de fazer.
Identifique tarefas e projetos que podem ser delegados, forneça os recursos necessários e permita que a equipe tome suas próprias decisões, oferecendo suporte nos momentos-chave. Em vez de dizer "Me avise se tiver dúvidas", diga "Como posso colaborar na solução das dúvidas da equipe?".
A Autoridade Paternalista vs. a Investigação Curiosa
Outro exemplo de liderança ineficaz é o uso de uma comunicação autoritária, em vez de uma linguagem inclusiva e participativa. Fabiana, a gerente de projetos da mesma empresa, frequentemente usa frases como “Faça as entregas conforme este documento de escopo” e “Eu preciso que você termine isso até o fim do dia, ok?”. Sua abordagem não deixa espaço para discussões ou sugestões. A equipe se sente alienada, pois suas opiniões sobre o processo de execução parecem irrelevantes para Fabiana. Eles trabalham apenas para cumprir ordens, sem entusiasmo ou compromisso com o resultado final.
Em contraste, Carla, a líder de operações, usa as reuniões de equipe para perguntar: “O que vocês acham deste escopo? Como podemos torná-lo mais viável?” e “Quais são suas sugestões para resolver este problema do prazo?”. Com isso, a equipe de Carla se sente incluída no processo decisório, o que aumenta o senso de propriedade e comprometimento com os resultados.
A equipe só vai se comprometer com as decisões nas quais tiver participação ativa. Por isso é necessário criar um ambiente de confiança que apresente espaço para a escuta ativa, uma atividade investigativa de colheita das ideias da equipe.
Realize reuniões regulares onde todos possam expressar suas ideias e opiniões, e demonstre abertura e receptividade a sugestões da equipe. Em vez de dizer "Quero saber se vocês gostaram destas ideias", diga "Como vocês melhorariam esta ideia?". Responda às sugestões de forma construtiva, mostrando que você valoriza a contribuição de cada membro.
Mover uma Equipe da Aceitação para o Comprometimento: Um Processo Contínuo e Consistente
Ao adotar práticas de liderança que valorizam os membros da equipe, você não apenas melhora a produtividade e a inovação, mas também cria um ambiente de trabalho mais satisfatório e motivador.
Convido você a refletir sobre como tem exercido sua liderança e a implementar essas práticas em seu dia a dia. O impacto certamente será transformador não apenas para o resultado do trabalho e para a saúde produtiva e mental da sua equipe, mas também para a sua realização pessoal e profissional com o trabalho executado.

Comentários